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id da página: 11076 Raymond Abellio Gnose Raymond Abellio

Abellio Fragmentação da Mitografia


ABELLIO, Raymond. Approches de la Nouvelle Gnose. Paris: Gallimard, 1981.
ABELLIO, Raymond. Manifeste de la Nouvelle Gnose. Paris: Gallimard, 1989.

Vemos assim como tendemos a relativizar toda visão diacrônica dos mitos e, consequentemente, também toda meta-história que se dá por objetivo, além da história simplesmente factual, de estudar a presença imanente dos mitos no tempo, suas transformações, laicizações, degradações e ressurgimentos. É claro, estamos de acordo em dizer que esta história do imaginário não deve ser confundida com uma história imaginária, mesmo que, a todo momento, ela corra, por falta de uma clara visão de sua sujeição ao que a envolve, o risco desta confusão. Também subitamente na moda, esta noção de "meta-história" se apoia infelizmente, na maioria das pesquisas contemporâneas, em um substrato fortemente fragmentado e que podemos até dizer babélico, tanto ele aparece, como a torre do mesmo nome, "feito de tijolos simplesmente justapostos ao betume e não de pedras rejuntadas com cimento" (Gênesis, XI-3). Tal é, por exemplo, o grande reproche que podemos fazer de imediato ao sistema desses "a priori históricos" chamados episteme por Michel Foucault (As Palavras e as Coisas, Gallimard, Paris 1966). Segundo este sistema, cada época seria caracterizada e até comandada por uma espécie de arquétipo conceitual unido à sua linguagem. Sob o brilho de um estilo que já pertence ao esteticismo homossexual, Jean Piaget denuncia severamente o arbitrário e a heterogeneidade dos componentes dessas episteme sucessivas, ao mesmo tempo em que mostra que nada as liga entre si, o que torna sua sucessão "incompreensível" e, a nosso ver, remete, aqui novamente, ao muito fascinante esteticismo da desconstrução que marcou esta época.

É operando uma fragmentação ainda mais aprofundada que os pesquisadores agrupados em torno de Gilbert Durand procederam, desde o início dos anos oitenta, ao estudo diacrônico da vida dos mitos, mas esta mesma fragmentação, ao levá-los em profundidade a análises mais detalhadas e de objeto mais preciso e mais limitado, os protegeu do arbitrário e da heterogeneidade das episteme ambiciosas demais de Michel Foucault. De uma forma geral, trata-se, para esta escola, de questionar o que distingue o arquétipo "genotípico" — uma espécie de Urgrund previamente estudado de forma sincrônica — dos símbolos "fenotípicos" que apresentam suas derivações históricas e culturais. Segundo estes pesquisadores, toda corrente sociocultural se desenha assim como um ciclo onde persiste, em uma "ambiguidade sistemática", uma emergência aparente sustentada pelos dirigentes sociais no poder em um mesmo momento, que organizam o imaginário em ideologias, códigos, pedagogias, etc., e reprimem, marginalizando-a, toda uma parte desclassificada, fermento de contestação e de dissidência, da qual só pode resultar um esgotamento mais ou menos rápido dos mitos muito "desmitologizados" pela instituição social reinante.